A continuidade eclesiológica entre Mystici Corporis e Lumen Gentium
Doutrina sobre o 9° Artigo do Credo
Uma das questões mais debatidas sobre o Concílio Vaticano II é se a constituição Lumen Gentium (1964) representou uma ruptura ou uma continuidade em relação ao magistério anterior sobre a natureza da Igreja.
Quando comparada à encíclica Mystici Corporis Christi (1943), de Pio XII, percebe-se uma continuidade substancial. Embora Lumen Gentium utilize uma linguagem mais ampla em alguns pontos, ela preserva os elementos fundamentais da eclesiologia desenvolvida por Pio XII: a Igreja é uma única realidade, simultaneamente visível e espiritual; possui uma estrutura hierárquica querida por Cristo; comunica a graça por meio dos sacramentos; e, sendo santa, acolhe pecadores em constante necessidade de penitência e renovação.¹²
A Igreja é uma única realidade
Em Mystici Corporis, Pio XII combate tanto uma compreensão puramente jurídica quanto uma visão meramente espiritual da Igreja. Para ele, a Igreja é visível porque é um verdadeiro corpo, e não uma comunidade invisível composta apenas por almas unidas interiormente a Cristo.²
Esse mesmo princípio aparece em Lumen Gentium. O Concílio afirma que não existem duas Igrejas — uma sociedade visível e outra comunidade espiritual — nem uma Igreja terrestre distinta de uma Igreja celeste. Trata-se de uma única realidade complexa, humana e divina, na qual a estrutura visível serve de instrumento ao Espírito de Cristo, assim como a natureza humana de Cristo serviu de instrumento ao Verbo na Encarnação.¹
A comparação com o mistério da Encarnação é particularmente significativa: a dimensão institucional não compete com a dimensão espiritual, mas está a seu serviço.¹
A hierarquia faz parte da própria constituição da Igreja
Outro ponto de continuidade encontra-se na compreensão da estrutura orgânica da Igreja.
Pio XII insiste que o Corpo Místico não é uma associação informal de carismas nem uma realidade puramente espiritual. Assim como todo corpo possui membros com funções diversas, também a Igreja possui uma organização querida por Cristo, na qual aqueles que exercem a autoridade sagrada ocupam um lugar próprio na vida do Corpo.²
Ao mesmo tempo, ele recorda que a Igreja não se reduz à hierarquia: religiosos, leigos, famílias e todos os fiéis desempenham funções indispensáveis para a vida do Corpo de Cristo.²
Lumen Gentium retoma exatamente essa síntese ao afirmar que a sociedade estruturada com órgãos hierárquicos e o Corpo Místico de Cristo constituem uma única realidade. Mais adiante, descreve os vínculos que unem os fiéis à Igreja visível: a profissão da mesma fé, a participação nos sacramentos e a comunhão sob o governo legítimo da Igreja.¹³
A vida sobrenatural é comunicada pelos sacramentos
Em Mystici Corporis, Pio XII enfatiza que Cristo não deixou seu Corpo sem os meios necessários para sua conservação ao longo da história.
A graça é comunicada de maneira objetiva através dos sacramentos. O Papa menciona explicitamente o Batismo, a Confirmação, a Penitência e a Eucaristia como meios pelos quais Cristo sustenta continuamente os membros do seu Corpo desde o nascimento espiritual até a morte.²
Lumen Gentium preserva essa mesma perspectiva ao afirmar que Cristo continua sustentando sua Igreja visível, por meio da qual comunica aos homens a verdade e a graça.¹
A continuidade é evidente: Deus salva os homens mediante uma economia sacramental concreta, e não apenas por uma experiência religiosa subjetiva.
Uma Igreja santa que acolhe pecadores
Talvez um dos aspectos mais importantes dessa continuidade seja a compreensão da santidade da Igreja.
Pio XII rejeita a ideia de que o Corpo Místico seja composto apenas por pessoas moralmente perfeitas ou exclusivamente pelos predestinados. Enquanto permanecem unidos à Igreja e não rompem sua comunhão por heresia, cisma ou apostasia, os fiéis continuam pertencendo ao Corpo, ainda que possam perder a graça santificante pelo pecado grave. Mesmo assim, conservando a fé e a esperança, permanecem chamados à conversão, à oração e à penitência.²
Essa mesma doutrina reaparece quase literalmente em Lumen Gentium, quando o Concílio afirma que a Igreja, "abraçando em seu seio os pecadores", é simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, seguindo constantemente o caminho da penitência e da renovação.¹
Portanto, a santidade da Igreja nunca significou a impecabilidade de todos os seus membros, mas a santidade do próprio Corpo de Cristo, que continuamente purifica aqueles que nele permanecem.
A Igreja de Cristo possui uma existência concreta
Também há continuidade na afirmação de que a Igreja fundada por Cristo possui uma existência histórica concreta.
Mystici Corporis identifica essa Igreja como a Igreja Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana, governada segundo a constituição estabelecida por Cristo.²
Lumen Gentium reafirma essa identidade ao declarar que a Igreja de Cristo "subsiste na Igreja Católica", governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele.¹
Ao mesmo tempo, o Concílio desenvolve esse ensinamento ao reconhecer que existem elementos de santificação e de verdade fora da estrutura visível da Igreja Católica. Esses elementos, porém, não constituem Igrejas independentes da Igreja de Cristo; são dons que pertencem propriamente à única Igreja de Cristo e orientam aqueles que os possuem para a plena unidade católica.¹
Conclusão
A comparação entre Mystici Corporis e Lumen Gentium revela uma notável continuidade doutrinária.
Ambos os documentos apresentam a Igreja como uma única realidade, simultaneamente visível e espiritual; afirmam sua constituição hierárquica como elemento essencial; ensinam que Cristo comunica sua graça por meio dos sacramentos; reconhecem que a Igreja é santa embora acolha pecadores em contínua necessidade de conversão; e identificam a Igreja de Cristo com a Igreja Católica.¹²
A principal novidade de Lumen Gentium não consiste em abandonar essa eclesiologia, mas em desenvolvê-la, sobretudo ao explicitar a existência de elementos de santificação e de verdade presentes fora da plena comunhão visível da Igreja Católica, sem negar que a Igreja de Cristo encontra sua subsistência plena na própria Igreja Católica.¹
Referências
1. CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium, n. 8 e n. 14.
2. PIO XII. Mystici Corporis Christi (29 de junho de 1943).
3. CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium, n. 14.