Dia nacional da lembrança do holocausto

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Por ARLENE CLEMESHA*

Palestra proferida no seminário “Enfrentamento ao antissemitismo: reflexões sobre o cenário internacional”, organizado pela Fundação Alexandre de Gusmão, do Ministério das Relações Exteriores

O holocausto

Proferir esta breve palestra no dia nacional de lembrança do holocausto carrega em si uma enorme responsabilidade. Como fazer jus ao sofrimento de todos os seis milhões de judeus, Testemunhas de Jeová, ciganos, poloneses étnicos, militantes comunistas, e opositores do nazismo, que pereceram nos campos de trabalho forçado e de extermínio nos territórios conquistados pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial? Como honrar sua memória e de seus descendentes?

O holocausto foi sem sombra de dúvida um dos capítulos mais violentos e macabros da história da humanidade. Terminada a Segunda Guerra Mundial, quando a historiografia finalmente debruçou-se sobre o fenômeno, encontrou nele o próprio “paradigma da barbárie moderna”, para empregar o conceito de Enzo Traverso.

Foi nesse sentido também que Hannah Arendt, Aimé Césaire, entre outros, destacaram que “Adolf Hitler não foi exatamente inovador: os métodos que ele empregou [a ideia da superioridade racial, racismo, e espaço vital] e as atrocidades que cometeu [a segregação racial, guetoização, os campos de concentração, o extermínio através de vários meios] foram forjados [anteriormente] nas colônias europeias”.[1]

Como afirmou Aimé Césaire, Hitler aplicou na Europa os procedimentos colonialistas que até então tinham sido reservados exclusivamente para os árabes da Argélia, os coolies da Índia, e os negros da África.

Mas ao invés de explorar a barbárie moderna e sua expressão no Holocausto, como explica o professor da Univ. Ben Gurion, Amnon Raz-Krakotzkin “foi importante para o Ocidente isolar e apresentar o Holocausto como uma anomalia… para preservar a auto-imagem ocidental cristã (secular) como a portadora exclusiva da democratização, secularização e do progresso”.[2]

Quando o holocausto é excepcionalizado, não é sua real singularidade que é honrada. Ele é excepcionalizado para validar a história do Ocidente como uma narrativa de progresso; permanecendo assim como “a única mancha nos registros históricos do Ocidente moderno – registro este, no entanto, repleto de escravidão, genocídios, despossessão e destruição”.[3]

Não é coincidência que os mais fracos e doentes de Auschwitz tenham recebido a alcunha de “der muselmänner” ou “muçulmanos”.[4] Ou que outros grupos tenham sido alvejados e exterminados em Auschwitz junto com os judeus. As primeiras vítimas das execuções empregando monóxido de carbono, pelo nazismo, foram doentes mentais em 1940; seguidos de opositores soviéticos e poloneses em 1941, assassinados com Zyklon B em Auschwitz.

Portanto, para honrar essa memória não basta falar do holocausto, ensinar o holocasto em todas a suas singularidades e especificidades; é necessário enxergar que ele não constituiu uma exceção ou anomalia histórica. Ele ocorreu na história, através da história, e honrar a sua memória é compreender como as civilizações tidas como mais avançadas continuaram e continuarão a gerar genocídios como parte de sua história.

Al Nakba

Foi com essa compreensão que tantas vozes judaicas no Brasil, nos Estados Unidos, e ao redor do mundo, enxergaram muito rapidamente o genocídio do povo palestino, e se ergueram para dizer que “nunca mais” vale para todos. Vozes judaicas estas que passaram a dizer que para honrar o sofrimento dos seus antepassados, não podem deixar que nenhum genocídio seja cometido, e muito menos em seu nome, isto é, mediante a apropriação não autorizada de sua identidade judaica.

É alarmante que a excepcionalização do holocausto exclusivamente para limpar a mancha da culpabilidade da Europa, tenha dado lugar à instrumentalização do holocausto e do antissemitismo pelo Estado de Israel, para se blindar das críticas que crescem toda vez que crescem os ataques israelenses à população palestina confinada na Faixa de Gaza.

O establishment israelense entendeu que a projeção do holocausto como uma ameaça a pairar constantemente no horizonte exclusivamente do Estado de Israel, servia como justificativa para seus próprios crimes coloniais contra a população nativa do território conquistado, qual seja, a população palestina.

Pelo mesmo motivo, não costuma ser muito produtivo – socialmente falando, para um país multi-étnico e multicultural como o Brasil – reconhecer a dor de um, sem reconhecer a dor do outro, ou combater o antissemitismo sem combater o racismo anti-árabe e a islamofobia.

Mais do que isso, se o legado histórico mundial do holocausto judeu foi o ordenamento mundial pós-Segunda Guerra Mundial, notadamente, a “Convenção para a prevenção e punição do crime de genocídio”, além da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ambos de 1948 (e toda a ideia da universalização dos direitos e proteção aos indivíduos), então mais um motivo para o aprendizado do Holocausto valer para todos.

Demorou aproximadamente um ano, mas o Tribunal Penal Internacional emitiu mandato de prisão conta Benjamin Netanyahu por, “crimes internacionais cometidos no território do Estado da Palestina desde pelo menos o dia 8 de outubro de 2023: fome contra civis como método de guerra, causando intencionalmente enorme sofrimento, ferimentos e danos graves ao corpo, à saúde, tratamento cruel, morte intencional e assassinato, ataques dirigidos intencionalmente à população civil, assim como os crimes contra a humanidade de extermínio e/ou assassinato, perseguição, e alegações de outros atos desumanos paticados”.

Na CIJ também corre uma ação protocolada pela África do Sul, apoiada por vários estados incluindo o Brasil, que em janeiro de 2024 já tinha chegado à conclusão técnica de que um “provável genocídio” estava sendo praticado pelas Forças armadas israelenses contra o povo palestino, levando a Corte a emitir medidas cautelares de suspensão imediata da ofensiva, que jamais foram cumpridas.

Peça chave na preparação, execução, e até mesmo no ocultamento de um genocídio, é a comunicação. Na Alemanha nazista, a propaganda anti-judaica empregada por Hitler contou com sua desumanização, apelidos abjetos lançados contra eles, a ideia da sua inferioridade em relação ao alemão, a segregação, estigmatização, e absurdas teorias da conspiração que serviram o propósito de desumanizar os judeus e tornar aceitável e até desejável o seu extermínio.

Vejam, não deveria causar surpresa entender que tudo aquilo ressoa muito com o que temos ouvido das bocas de várias lideranças e membros do governo israelense, que desde bem antes do 8 de outubro de 2023, têm chamado publicamente os palestinos de animais humanos, sub-humanos, baratas tontas dentro de garrafas, alvos legítimos de fome intencional, presos políticos que não merecem ser alimentados… e todo tipo de declaração pública de desumanização. A relação de todos os casos de violações está preenchendo páginas e mais páginas dos relatórios de oficiais de Direitos Humanos da ONU e de organismos internacionais.

Antissemitismo, racismo anti-árabe, e islamofobia

Assim como o holocausto, o antissemitismo é específico; é o racismo dirigido contra judeus ou contra instituições judaicas apenas por serem judaicas; mais do que isso, para honrar os ensinamentos de Brian Klug, um dos redatores da Declaração de Jerusalém do Antissemitismo (JDA), trata-se da transposição aos judeus dos estereótipos que existem exclusivamente na mente do racista, do antissemitima. Assim como o racismo anti-árabe é a transposição aos árabes dos estereótipos que existem exclusivamente na mente do racista, sem respaldo na realidade [sem tempo para falar aqui de exemplos, que são vários].

Mas há um segundo motivo, muito básico, pelo qual o o combate ao antissemitismo só será efetivo se for feito junto com o combate ao racismo anti-árabe e a islamofobia.

O Brasil possui hoje uma comunidade de aproximadamente oito milhões de descendentes de libaneses que nesse exato momento assiste à destruição dos locais de origem de suas famílias pelo exército israelense. São cenas distópicas que reproduzem, ainda que não na mesma escala, as imagens da destruição da Faixa de Gaza que por dois anos vimos e seguimos assistindo através do jornalismo cidadão e das mídias sociais.

Como esperar que esse segmento da população brasileira (além de outros) não expresse seus ressentimentos contra o segmento brasileiro de origem judaica, se o Estado herzeliano de Israel diz que age em nome de todos os judeus, pela salvaguarda de todos os judeus, e cria uma confusão proposital entre a identidade judaica e o Estado de Israel? Se os próprios oficiais israelenses, e o establishment sionista, fomentam e difundem o racismo anti-árabe e a islamofobia? Recusando-se a admitir o genocídio palestino, para não ter que prestar contas por ele?

Vejam, se o Brasil aprovar uma legislação exclusiva para o antissemitismo, sem levar em conta o racismo anti-árabe e a islamofobia, no exato momento em que o Estado que diz agir em nome da salvaguarda dos judeus destrói populações e sociedades árabes inteiras – na Faixa de Gaza, no sul do Líbano, e até mesmo em Beirute – é provável que vejamos não só o crescimento do ressentimento, mas a corrosão da convivência pacífica que sempre caracterizou as diferentes comunidades no Brasil.

Já temos uma politização doméstica do conflito, ou melhor, uma transferência do conflito para a cena política local, ali onde a compreensão a prevalecer na sociedade brasileira deveria ser aquela da defesa dos direitos humanos e da lei internacional para todos. Este constitui o ponto de entrecruzamento entre os contextos nacional e internacional que não pode ser ignorado no trabalho de conscientização e combate à discriminação.

Criar uma política de combate ao antissemitismo só pode ser feita em conjunto com uma políticas de combate ao preconceito anti-árabe e à islamofobia sob risco de acirrar os ressentimentos e favorecer a transferência do conflito para a política local.

Quanto mais as vítimas do genocídio judeu e as vítimas do genocídio palestino reconhecerem mutuamente a dor que ambos carregam – que possam celebrar o Dia de lembrança do holocausto e um Dia de lembrança da nakba a ser instituído – maiores as chances de que a memória do holocausto seja honrada, e de que o legado do holocausto seja a própria prevenção universal contra a repetição de novos genocídios.

*Arlene Clemesha é professora de história árabe contemporânea da Universidade de São Paulo (DLO-USP). Autora, entre outros livros, de Marxismo e judaísmo: história de uma relação difícil (Boitempo) [https://amzn.to/3GnnLwF]

Palestra disponível em https://www.youtube.com/live/CSwL4Dbj6kQ?si=n0zMj7zo6JF32Eyy

Notas


[1] Brian Klug. “An Emblematic Embrace: New Europe, the Jewish State, and the Palestinian Question. In: Bashir Bashir & Leila Farsakh. The Arab and Jewish Questions, Nova Iorque: Columbia University Press, 2020, p. 51.

[2] Amnon Raz-Krakotzkin. “Benjamin, the Holocaust, and the Question of Palestine”, In: Bashir Bashir & Amos Goldberg. The Holocaust and the Nakba, Nova Iorque: Columbia University Press, 2019, p. 84.

[3] Idem.

[4] Veja Giorgio Agamben. O que Resta de Auschwitz. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 49.

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