Mercado de baterias deve atingir R$ 50 bi no país
Estimativa é de que os investimentos no setor cheguem a esse valor no curto prazo
O mercado de energia brasileiro deve atravessar uma nova fronteira em 2026 com o início dos investimentos em baterias para o armazenamento de eletricidade, com investimentos que podem somar ao menos R$ 50 bilhões nos próximos anos, conforme estimativa de especialistas. O primeiro leilão da modalidade está previsto, inicialmente, para ocorrer em abril.
Os sistemas de armazenamento são vistos como uma das principais saídas para resolver uma das maiores dores do setor elétrico do país: a sobreoferta estrutural de energia durante o dia, especialmente, de geração solar, com a saída da fonte do sistema no período noturno, quando ocorre o pico de consumo.
Para evitar desequilíbrio nas redes elétricas durante o dia, quando a demanda é baixa em relação à produção, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem promovido cortes de geração, conhecidos no Brasil pelo jargão em inglês “curtailment”, algo que tem trazido estresse financeiro em diversas empresas do setor.
As expectativas para o leilão, assim, são grandes, mas ele pode atrasar. O sócio da área de energia do escritório Pinheiro Neto Advogados, José Roberto Oliva Junior, avalia que houve sinalização de que o leilão inicialmente previsto para abril seja postergado para junho. Segundo o especialista, ainda há dois principais pontos a serem resolvidos. O primeiro sobre como será a distribuição dos custos: no desenho atual, as despesas ficariam apenas com os geradores. Há também a questão da dupla tarifação sobre os consumidores.
“Da forma que está sendo estruturado se teria uma tarifa dupla, se pagaria como consumidor para armazenar e como gerador para injetar a energia”, afirma. Para Oliva, se esses pontos forem resolvidos, pode se reduzir o risco de judicialização. “Se aumenta também o nível de competitividade. A bateria veio para ficar”, afirma.
A despeito dessas incertezas, Oliva conta que as consultas no escritório são grandes, inclusive de chinesas que estão estudando produção de baterias no Brasil. Dos fabricantes locais, apontou, há a WEG e Baterias Moura.
A visão é que esses sistemas de armazenamento vão ajudar o mercado de energias renováveis. Nesse segmento, os cortes de geração já têm promovido retração na construção em novas usinas: 2025 foi o ano com o menor nível de investimentos em eólicas e solares fotovoltaicas desde 2019, ressaltou Rafael Rabioglio, chefe de pesquisa para a América Latina na BloombergNEF. Uma das principais tendências apontadas pela BloombergNEF é que o armazenamento de energia no país e na América Latina deve ter em 2026 um ano decisivo.
O responsável pela área de energia do Santander Brasil, Julio Meirelles, afirma que outros países, como o Reino Unido, já enfrentaram esse problema e que o Brasil é visto como uma próxima fronteira. Além de Europa e Estados Unidos, Chile e China também são mercados maduros para o segmento. “Hoje, um dos principais problemas do setor é a sobreoferta estrutural de energia durante o dia e falta de potência disponível para atender os picos de consumo.”
Meirelles lembra que as baterias trazem ainda flexibilidade, outra tendência observada. Ele aponta que os ultraelétricos intensivos, casos dos “data center”, precisam de energias sem intermitência por 24 horas. O executivo aponta que esse cenário tem encarecido o preço da energia. Com as baterias, diz, não só se adiciona flexibilidade ao sistema mas também a desejada entrega de potência.
O leilão de baterias, segundo ele, já tem movimentado diversos “players”, de diferentes perfis. Além das empresas de energia verticalizadas, estão atentos geradores, transmissores, fundos de private equity, fornecedores e prestadores de serviços no geral, como consultores e financiados, segundo Meirelles, do Santander.
Oliva, do Pinheiro Neto, aponta que o mercado de baterias faz parte, assim, do “pacote do setor elétrico”, visto que ela atua ao dar uma resposta à variação da carga e geração, de forma complementar às renováveis. Fora isso, viria para ajudar na crise das empresas de energia desse setor, que está com grandes perdas por conta do “curtailment”. Segundo ele, o leilão deste ano tem demanda prevista de 2 gigawatts (GW), mas as estimativas do mercado mostram que seria necessário ao menos 5 GW. E que haveria demanda de mercado para esse volume.
A tendência de crescimento é em toda região da América Latina. Aumento na construção de instalações no Chile, o primeiro leilão de baterias do Brasil, o novo marco legal do México para a modalidade e a entrada em operação das primeiras centrais com capacidades contratadas na Argentina deverão marcar o início de um boom regional de armazenamento, projeta Rabioglio, da BloombergNEF, que estima uma adição de 12 gigawatts-hora (GWh) em sistemas de baterias na América Latina em 2026, o que significa mais do que o dobro da capacidade atual. No Brasil, o primeiro leilão é visto com grande atenção pelo mercado por ser considerado um caminho para reduzir o “curtailment”.
O mercado de armazenamento de energia pode vir a crescer de forma exponencial no Brasil, mais ainda não está claro como será a formação desse segmento no país, segundo Rabioglio, da BloombergNEF. Para ele, um cenário que pode se formar é algo entre a indústria eólica e a solar.
No Brasil, houve a formação de uma cadeia de fornecedores de equipamentos eólicos, mas o mesmo não se repetiu com a expansão da energia solar: 90% dos módulos fotovoltaicos são importados da China. O país asiático também é o principal produtor de sistemas de baterias.