Seria emprestar demasiada nobreza à opereta do clã Bolsonaro equipará-la à tragédia do rei Lear. A peça de Shakespeare trata de intrigas, traições, hipocrisia e ingratidão na relação entre um pai no outono do poder e suas filhas herdeiras.
Esses temas transparecem das mensagens recuperadas pela Polícia Federal do celular do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), divulgadas na quarta-feira (20), mas em registro de briga de bar portuário, não no dos célebres torneios de diálogos do bardo inglês.
O patriarca Jair vislumbra o cárcere e tem uma herança a transmitir sob a forma da bênção a um candidato ao Planalto. Eduardo, o filho fujão, teme que a preferência do progenitor migre para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e trama para embotar esse desfecho.
Incita o governo Donald Trump a sabotar a economia brasileira. Se as duas filhas mais velhas de Lear bajulam o pai, Eduardo insulta o seu: "VTNC, seu ingrato do c.". Alvejar o governador é seu objetivo: "Tarcísio nunca te ajudou em nada no STF. Sempre esteve de braço cruzado vendo vc se f. e se aquecendo para 2026".
Pela hipocrisia traiçoeira, na peça seiscentista, e pela truculência rústica, no dramalhão brasileiro, o resultado é igual —o pai se lasca. As maquinações de Eduardo pioram a situação judicial de Jair. Caíram as chances de penas menores, de cumprimento domiciliar ou de perdão presidencial.
Como se não bastasse a acusação de tentativa de golpe, Jair Bolsonaro terá agora, graças à descortesia estrepitosa de Eduardo, de lidar com uma outra, a de ter tentado coagir autoridades incumbidas do processo associando-se a um governo estrangeiro.
A inépcia do filho poderá custar ao pai mais tempo na cadeia, e não faltou nessa urdidura nem quem, como autêntico bobo da corte, lhe advertisse disso: "Esse seu filho Eduardo é um babaca", disse o pastor Silas Malafaia, agora também investigado.
Se as primogênitas de Lear ao menos experimentaram o gosto do poder conquistado pela traição, o destino de Eduardo tende a ser outro. Ao ostracismo autoimposto devem se somar sanções judiciais e políticas que o impedirão não apenas de disputar eleições, mas também de usufruir da liberdade caso resolva retornar.
Boas tragédias possuem a capacidade de induzir no espectador reflexões sobre a confecção complexa e contraditória do tecido humano. Não há nada disso na história das trocas de cotoveladas na família Bolsonaro.
Seu valor didático é escancarar a farsa armada por pessoas desqualificadas para disfarçar seus objetivos mesquinhos. Os Bolsonaros só estão interessados em poder e sobrevivência. Se tiverem de atropelar a nação, o pai ou o filho para isso, irão em frente. É tolice deixar-se conduzir pela ilusão de radicalismo que fabricam.
A exposição crua dos seus métodos e objetivos terá prestado um serviço útil se ajudar eleitores e forças políticas a tomarem distância dessa família tóxica.
A verdade é: Não tem projeto para o País. Pensam em seus egoísmos explícitos, apenas ter e usufruir do poder em benefício próprio.