[RESUMO] Em tempos de streamings e de quase extinção do mercado de home video, a Versátil é dona de uma proeza: lança todos os meses cerca de 50 filmes, em DVDs e Blu-rays de alta qualidade e recheados de extras, para um pequeno, mas exigente, grupo de cinéfilos. Fundador e curador da empresa contam como sobrevivem há 26 anos a constantes turbilhões de mercado, movidos pela paixão de difundir clássicos, títulos raros e pérolas dos mais variados gêneros.
A primeira imagem que vem à cabeça quando se entra no escritório da Versátil Home Video é a do final do primeiro "Indiana Jones" (1981). Como o galpão do filme onde guardam a Arca da Aliança, as salas da empresa estão tomadas por um mar de caixas e de estantes. Elas formam um armazém improvisado, entrincheirado em um prédio comercial na zona oeste de São Paulo.
Para quem visita o espaço, é muito fácil se perder nos poucos corredores do lugar, que escondem um oceano de preciosidades, quase como na aventura com Harrison Ford. Nas prateleiras, caixas com discos de DVD e Blu-ray se multiplicam, reunindo uma coleção de filmes para absolutamente todos os gostos.
Ali dentro, cineastas consagrados como Billy Wilder e Ingmar Bergman se misturam a gêneros específicos, como o noir e o giallo, uma vertente italiana do horror. A profusão de obras-primas forma o estoque de uma das últimas empresas de mídia física do país dedicadas ao segmento.
A produção segue a todo vapor no recinto. Os lançamentos da Versátil superam a marca de 50 filmes ao mês, com pré-vendas anunciadas a cada duas semanas em transmissões ao vivo pelo YouTube.
Vinte e seis anos depois de sua fundação, a empresa resiste com bravura ao mar revolto que se tornou o mercado de home video. Aos olhos do fundador, Oceano Vieira de Melo, a Versátil sobrevive graças a sua arma secreta: a paixão do público pela sétima arte.
"A mídia física é para gente cinéfila, para pessoas fanáticas por cinema. São pessoas que têm a Netflix e o Globoplay, mas que também querem pegar o filme na mão", diz Melo. "Eu me lembro de quando a gente comprava discos de vinil na minha época. A gente queria segurar o disco, não só ouvi-lo tocar na rádio."
O amor ao cinema também está na origem da Versátil. O negócio nasceu em 1999, pouco depois da entrada do DVD no Brasil, quando Melo sentiu a ausência de filmes europeus entre os primeiros lançamentos dos estúdios americanos no país.
"O DVD era uma novidade e as ‘majors’ foram investindo e trazendo o formato para o país", lembra. "Eles faziam pacotes de lançamentos que chegavam aos 50 títulos, todos hollywoodianos. Eu, que era formado nas escolas europeias, do neorrealismo à nouvelle vague, achava aquilo um absurdo."
O empresário viu de perto o nascimento da mídia física que aposentou o VHS. Dono do Jornal do Vídeo, veículo dedicado ao mercado das locadoras, ele visitava as principais feiras e festivais de cinema do mundo havia dez anos quando assistiu à apresentação oficial do DVD nos Estados Unidos, em 1995.
Jornalista autodidata, o empresário nascido em Alagoas ajudou a introduzir a tecnologia no mercado brasileiro, em palestras e encontros com o setor. Os primeiros lançamentos no formato aconteceram no final de 1997, começando pela edição de "Era Uma Vez na América" (1984), da Flashstar.
Frustrado com o domínio de Hollywood, Melo logo percebeu que poderia explorar aquele nicho, até porque conhecia melhor do que ninguém a tecnologia e o meio.
Foi assim que a Versátil nasceu em 1999, colocando no mercado uma edição de "Subway", thriller de 1985 do francês Luc Besson —uma escolha barata e que alimentava o público das locadoras, segundo Oceano.
"Havia o negócio acima de tudo, até porque eu tinha minha esposa e quatro filhos", ele diz. "O único detalhe era que a gente não lançava filme ruim. As escolhas ainda eram pessoais."
"Na época, quando você comprava os direitos autorais lá fora, você assinava um acordo de no mínimo sete anos para explorar o título em VHS. Por isso que milhares de filmes europeus e asiáticos nunca chegaram ao Brasil. As distribuidoras achavam que o filme europeu não vendia. O negócio era tiro, violência e nudez do cinema americano. A gente logo entrou com Akira Kurosawa, um dos diretores que amávamos."
Apesar do foco nos europeus, a companhia logo se aventurou pelos títulos americanos, como a ficção científica "Stargate". "As distribuidoras independentes do país tinham os direitos dos filmes, mas não sabiam lidar com o DVD", afirma Melo. "Como eu não tinha o dinheiro para comprar os direitos lá fora, a gente propôs para essas empresas que lançássemos juntos no formato, enquanto elas faziam sozinhas a edição em VHS."
Na Versátil de hoje, o trabalho é de formiguinha. Os funcionários trabalham nos produtos desde a concepção até o envio aos clientes, que compram no site oficial da empresa. O estoque fica no escritório por questão de custos —ficou muito caro alugar um terceiro espaço—, o que tem a vantagem de facilitar a fase final do negócio.
Na salinha ao lado da principal, a equipe cuida da operação geral: desenvolve as artes dos produtos, prepara e revisa os próximos lançamentos, gerencia o estoque e atende os clientes por e-mail. No salão, o longo corredor de estantes e caixas, há espaço para a confecção física dos itens e dos pacotes que serão entregues aos Correio. O apartamento vizinho empilha o grosso dos itens à venda.
A empresa conta hoje com um quadro de funcionários que varia de 8 a 12 pessoas, a depender do volume de trabalho do mês, além de colaboradores externos que ajudam em fases como a criação das legendas, explica o curador Fernando Brito. O time é enxuto, mas similar ao dos tempos áureos do disco, no começo dos anos 2000.
O que mudou foi o tamanho do mercado. As tiragens hoje giram entre 750 a 1.000 unidades, com casos de 500 ou até 300 exemplares. No auge da empresa, eram produzidos lotes de 2.000 cópias de um mesmo produto. Um título de sucesso chegava a vender 10 mil unidades.
"Hoje a empresa tem um público fiel, os 300 de Esparta, como a gente brinca", diz o curador. "Eles são o público colecionador, que compram de tudo. Eu estimo que temos agora entre 1.000 e 2.000 pessoas que consomem mídia física, só que é um público segmentado. A pessoa que compra filme clássico americano não é a mesma que compra o filme clássico europeu, que não é a mesma do filme cult."
A Versátil é hoje a maior empresa no arrasado mercado de mídia física do país. Todos os estúdios americanos abandonaram esse setor —a Sony foi o último, em 2022. A resistência cinéfila brasileira é formada ainda pela Classicline, fundada em 2002, e a Obras-Primas do Cinema, em atividade desde 2020.
Não por acaso, fãs de cinema que compram DVD e Blu-rays se sentem partem de uma seita. No Facebook, o grupo Versátil Colecionadores, criado pela empresa em 2020 para reunir os seus clientes e divulgar produtos do catálogo, tem hoje 3.100 membros. Os usuários comentam os anúncios, dão sugestões de títulos e até catalogam os filmes já lançados.
Os rumos da Versátil passam todos pelas mãos e pelos olhos de Fernando Brito, que entrou na empresa um ano depois de sua fundação. Ex-funcionário da locadora 2001, uma das mais prestigiadas do finado setor, ele cuida da escolha e da localização dos direitos dos títulos, além de apresentar os novos produtos nas lives do YouTube —as transmissões duram mais de duas horas, com ele discutindo com convidados cada uma das obras selecionadas.
Brito também é o responsável pela criação das coleções temáticas, o carro-chefe de vendas hoje. Se no início a Versátil lançava em geral um único filme por DVD, na última década o foco passou a ser caixas que reúnem até sete filmes em dois ou três discos, com base em gêneros, diretores, atores ou assuntos em comum. Somadas, algumas coleções, como as dedicadas ao noir e ao horror, já tiveram 50 lançamentos.
"A gente foi vendo que precisávamos de uma abordagem plural, de trabalhar com diferentes públicos, cinematografias e subgêneros", ele explica. "A gente queria atender a todos os públicos, desde um cinema mais clássico, dito de arte, até um mais popular. Essa é a nossa função até hoje."
O catálogo da Versátil reflete o jardim de cinemas cultivado pelo curador. Há coleções dedicadas a medalhões, como François Truffaut, e outras a nomes menos celebrados pelos brasileiros, como o indiano Satyajit Ray.
Uma estante do escritório tem uma prateleira com uma caixa de obras LGBTQIA+ logo acima de outra com ficções científicas dos anos 1950. Filmes de ação de Hong Kong, policiais franceses, terror espanhol, títulos do blaxploitation americano: todos os gostos são contemplados.
O negócio brasileiro repete, a seu jeito, o mercado de vídeo estrangeiro, que também descobriu um filão no cinema de gênero. "Esses filmes têm um público fiel que foi muito maltratado inicialmente", explica Brito. "Aqui no Brasil, as primeiras edições para essas pessoas eram de banca de jornal, com versões ruins e sem extras."
A Versátil também atuou na frente das bancas, mas entregando edições de alto nível, feitas em parceria com este jornal. A empresa esteve envolvida em várias produções das Coleções Folha, incluindo as dedicadas a Charles Chaplin e ao cinema europeu.
"Otavio Frias Filho [diretor de Redação da Folha de 1984 até sua morte, em 2018] era um grande fã de cinema", lembra Vieira. "Na hora em que ele soube que poderíamos localizar os direitos dos filmes para o jornal, ele escalou uma equipe de jornalistas e passou a fazer seleções de 25 a 30 filmes."
Brito também credita o êxito das coleções aos jornalistas Cássio Starling Carlos e Pedro Maciel Guimarães. "Eles vinham com uma ideia, a gente fazia propostas, nós nos reuníamos, fazíamos um briefing e aí eu via o que era possível em cada recorte."
A paixão pelo cinema também instigou Melo a aprofundar os seus estudos pela doutrina espírita. Ele criou em 2005 a Video Spirite, um selo dentro da Versátil dedicado à religião.
"Eu comecei a engajar com o meu ideal espírita e percebi que muitas obras dali não eram lançadas nem em VHS", afirma. Em sua casa, a poucos quilômetros da Versátil, as estantes se dividem entre os filmes de temas gerais, os livros de música (outra paixão) e as obras espíritas. Um pôster de Allan Kardec adorna a lateral de uma das prateleiras.
A empresa lançou poucos filmes pelo selo religioso, a maioria não vendeu, mas três foram grandes sucessos: "Pinga-Fogo com Chico Xavier", que reunia os programas de TV do médium; um documentário sobre o educador Eurípedes Barsanulfo, dirigido pelo próprio Melo; e "Minha Vida na Outra Vida", drama feito para a televisão, um dos campeões de vendas da história da Versátil.
Apesar de o streaming parecer o grande vilão do mercado de home video, a Versátil enfrenta problemas maiores nos últimos anos. Até hoje sofre para contornar as dívidas da Livraria Cultura e da Saraiva, que juntas somam R$ 1,5 milhão em pagamentos não realizados, segundo Melo, um caso que se desenrola desde 2016.
As duas redes eram grandes parceiras comerciais —algumas edições foram vendidas exclusivamente pela Cultura. O processo de recuperação judicial da livraria criou uma dívida de R$ 900 mil para a Versátil, que quase foi à falência.
"Nós tivemos que vender o nosso apartamento para pagar as contas atrasadas", Melo afirma. Chegou a faltar até dinheiro para o mercado.
Segundo Brito, a Versátil só não fechou as portas porque remodelou o negócio em torno do próprio e-commerce. "O mercado se reinventou às vésperas da pandemia com a venda direta ao consumidor", diz o curador.
O boom de vendas online em 2020 redirecionou as atenções sobre o site, que foi remodelado por completo. Agora, ao invés de multiplicar lotes de um mesmo produto para um público maior, a Versátil busca o nicho de colecionadores e de cinéfilos.
"O que nos conforta é que esse público continua fiel, ele não vai acabar de repente", afirma. "Você tem essa ideia de convivência. A pessoa tem a certeza de que aquele filme não vai sair de cartaz, então a sua experiência com ele será duradoura."
Essa direção se ramifica na curadoria, que é diferente para os DVDs e para os Blu-rays. O primeiro, por ser uma mídia mais barata e com público maior, permite que a Versátil explore títulos e gêneros pouco conhecidos. "É um produto que você trabalha pelo tema, pelo recorte do diretor", explica Brito.
Já o Blu-ray tem custos (e preços) mais elevados, o que força maior cautela. O formato também viabilizou coleções temáticas, mas dedicadas a obras de nomes mais famosos, como os cineastas David Lynch, Akira Kurosawa, John Ford e Brian de Palma.
As apostas comercialmente erradas nesse formato também doem mais no bolso. Brito dá como exemplo o filme "Verão de 85" (2020), drama do francês François Ozon lançado na esteira de "Retrato de uma Jovem em Chamas" (2019), Blu-ray que foi um grande sucesso de vendas. O título acabou encalhando na loja, mesmo com as pesquisas da empresa apontando que os dois longas tinham público parecido.
"O público do Blu-ray é mais conservador, geralmente só compra produtos nostálgicos ou filmes consagrados", explica. "O que a gente percebeu lá atrás é que os filmes contemporâneos são muito mais difíceis de vender do que os clássicos. Só quando ele fura a bolha que dá certo para a gente."
A barreira dos custos e do risco também impede a Versátil de apostar no formato do Blu-ray 4K, o de maior qualidade de imagem hoje, que vende cada vez mais nos Estados Unidos e na Europa. "Os discos são caros de produzir. Os aparelhos de reprodução também são caros e não existem no Brasil. O mercado aqui é muito pequeno, quem compra tem maior poder aquisitivo e já tem o costume de importar, o que mina o nosso potencial de vendas."
As dificuldades do mercado de home video no Brasil também impactam a replicação dos filmes em DVD e Blu-ray. Toda a operação é feita no exterior. A última fábrica brasileira nesse setor fechou as portas dois anos atrás.
Hoje com 73 anos, Melo deixou o comando da Versátil com Brito e os filhos, exaurido pelos calotes e por quase 40 anos intensos de trabalho.
Brito diz que uma das metas para os próximos meses é levar mais filmes brasileiros ao catálogo, um antigo pedido dos clientes. Três coleções devem ser anunciadas em breve. Um dos lançamentos mais recentes, e mais importantes da trajetória da empresa, foi a versão em Blu-ray de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964), o clássico de Glauber Rocha, em alta definição e recheado de extras.
Em meio a tantas turbulências de um negócio movido mais pela paixão cinéfila que pela expectativa de lucros, Oceano Vieira de Melo ainda tira dos filmes um dos grandes prazeres de sua vida. Todo mês visita o escritório da Versátil, pescando um ou outro lançamento no mar de caixas. "Disso eu não abro mão", ele afirma, entusiasmado.
Dez destaques disponíveis no catálogo da Versátil
Blu-ray
Deus e o Diabo na Terra do Sol
Versão em 4k, a maior resolução de imagem hoje no mercado, da obra-prima de Glauber Rocha (1964), lançada em parceria com a empresa Metrópoles
Bergman Essencial
Coleção mais valiosa da empresa, a Essencial reúne de dois a quatro filmes clássicos de diretores celebrados, em versões de alta definição. Esta caixa dedicada ao sueco Ingmar Bergman traz "Persona" (1966), "Morangos Silvestres" (1957), "Gritos e Sussurros" (1972) e "A Hora do Lobo" (1968).
Mestres do Cinema: Martin Scorsese
A coleção Mestres do Cinema tem a mesma proposta da Essencial, mas em uma versão reduzida e mais barata. Esta edição sobre Scorsese oferece os celebrados "Depois de Horas" (1985) e "O Rei da Comédia" (1983).
O Auto da Compadecida
Traz as duas versões da comédia de Guel Arraes adaptada da obra de Ariano Suassuna: a minissérie de TV (1999) e o filme (2000)
Creepshow
Os fãs de terror são um dos principais públicos da Versátil hoje, e a empresa sabe apelar aos clássicos. A edição traz os dois primeiros filmes da franquia (1982 e 1987) e quatro horas de extras, além de um livreto com ensaios de pesquisadores da área.
DVD
Coleção Hector Babenco
Oito filmes do cineasta, incluindo grandes sucessos como "Pixote" (1980), "O Beijo da Mulher Aranha" (1985) e "Carandiru" (2003)
Coleção Filme Noir: Neo Noir Anos 90
Coleção mais longeva da empresa, a Filme Noir hoje acumula 28 volumes e algumas dezenas de derivados. Entre as ramificações há esta dedicada aos anos 1990, que inclui "Ligadas pelo Desejo" (1996) e "Os Imorais" (1990).
O Som da Montanha
A oferta de títulos japoneses pela Versátil impressiona pela variedade. Há desde títulos da era de ouro do país até sucessos recentes, como "Drive My Car" (2021). Esta edição em DVD do clássico (1954) de Mikio Naruse, por exemplo, oferece ainda os cinco filmes silenciosos preservados do diretor.
Obras-primas do Terror: Horror Italiano
Outra coleção imensa em DVD é a do horror, com 23 edições e quase o dobro em derivados —fora as ramificações nas séries dedicadas ao slasher e ao giallo. As caixas de terror italiano são especialidade da casa, com uma coleção específica para o gótico do país e outra de títulos mais conhecidos de diretores como Michele Soavi e Lucio Fulci.
O Cinema de Satyajit Ray
Um dos pontos fortes da Versátil é garimpar cinematografias pouco presentes no mercado brasileiro. No ano passado, lançou esta edição dedicada ao grande cineasta indiano, que inclui filmes como "O Salão de Música" (1958) e "A Grande Cidade" (1963) em versões remasterizadas.
Quem bom saber que a versátil ainda está operando no Brasil. Fiquei curioso para visitar o site e explorar o catálogo. O único streaming que eu conheço dedicado a filme clássicos é a Oldflix.