São Paulo, quinta-feira, 07 de julho de 2005
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Saúde

Cada vez mais comum, a temida extração dos dentes de siso fica menos dolorosa com avanços técnicos

Com ou sem juízo?

KARLA MAIA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O assistente administrativo Mauricio Mandarino D'Angelo, 42, é uma daquelas pessoas que ainda têm medo de tirar os seus sisos. Embora os dois dentes da arcada inferior já tenham nascido, na arcada superior apenas um deles começa a despontar. Apesar da recomendação odontológica de extração, devido à falta de espaço para um correto posicionamento do dente, D'Angelo ainda está pensando se realmente se submete ao procedimento por receio de sentir dor.
A extração do dente de siso é um processo cada vez mais comum. Do total de atendimentos realizados na Fundecto (Fundação de Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Odontologia), da Faculdade de Odontologia da USP, pelo Setor de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, 80% dos casos são extrações dos terceiros molares, segundo Renata Matalon Negreiros, responsável pela triagem desses pacientes.


"Já é possível verificar muitos casos de pessoas que não possuem nem o germe do dente de siso, comprovando a evolução humana e a provável extinção desse dente", diz o professor da USP Waldyr Anthônio Jorge


De acordo com Waldyr Anthônio Jorge, professor da USP e coordenador do curso de especialização em cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial da Fundecto, isso se explica pelo fato de hoje o homem ter uma dieta muito mais pastosa do que há 2.000 anos, necessitando de menos dentes para a mastigação. Sendo assim, o desenvolvimento do esqueleto ósseo facial tende a diminuir, não acompanhando o da parte craniana, e o espaço para os dentes erupcionarem diminui. Como o terceiro molar é o último a aparecer, fica mais prejudicado. "Já é possível verificar muitos casos de pessoas que não possuem nem o germe desse dente, comprovando a evolução humana e a provável extinção desse dente ao longo das gerações", diz o professor.

APARELHOS ORTODÔNTICOS
O aumento do número de pessoas que utilizam aparelhos ortodônticos para correções na arcada dentária também levou a extrações cada vez mais precoces. Isso ocorre porque os exames radiológicos, moldes e fotos relacionados aos procedimentos ortodônticos permitem antever se haverá espaço suficiente para uma correta formação e erupção dos dentes de siso.
Acostumado ao uso de aparelhos móveis desde a infância, o digitador Ricardo Valente Martins, 23, não se incomodou ao saber que precisaria extrair os dentes de siso. Tirou os quatro de uma só vez. "Senti apenas um certo incômodo ao final do primeiro dia", afirma.
Com o aumento das extrações, também evoluíram os procedimentos para diminuir o tempo de cirurgia e o trauma causado nos pacientes. Um dos destaques é a analgesia inalatória, apontada pelos profissionais como boa aliada nos tratamentos odontológicos. A inalação de óxido nitroso misturado a oxigênio baixa o grau de tensão do paciente, mas o mantém consciente durante a cirurgia.
A aplicação dessa técnica tem se tornado mais freqüente nos consultórios, principalmente de um ano para cá, depois que uma nova regulamentação esclareceu as condições que habilitam os dentistas a utilizá-la.
"Em procedimentos mais traumáticos, como é a remoção dos sisos, o paciente fica ansioso e fecha a boca mesmo que não esteja sentindo dor. O uso do óxido nitroso é uma das melhores formas de que a odontologia dispõe para deixá-lo mais relaxado", explica Luciano Artioli Moreira, presidente da Associação Brasileira de Cirurgiões-Dentistas.
Já as anestesias têm apresentado um grau cada vez maior de efetividade com menos conseqüências para o paciente. Além de produtos específicos para cardiopatas e hipertensos, por exemplo, essas melhorias diminuíram o desconforto na injeção do líquido anestésico e reduziram o tempo de duração da anestesia e o número de ocorrências mais sérias, como os choques anafiláticos.

PREENCHIMENTO COM PLASMA
Para auxiliar na recuperação da cirurgia, o mais novo recurso utilizado em consultórios é o preenchimento do espaço que ficou aberto com plasma rico em plaquetas do sangue do próprio paciente, o que melhora e acelera a cicatrização, de acordo com Waldyr Anthônio Jorge.
Aumenta também o uso do laser, que estimula a reparação dos tecidos e tem ação analgésica e antiinflamatória, aliviando a dor e o inchaço e promovendo um pós-operatório mais estável.


Apesar da tendência cada vez maior de extração, a retirada dos dentes não deve ser tomada como regra para todos os casos


A auxiliar de consultório dentário Glecianila Lima de Alencar, 20, percebeu um tom avermelhado e um pequeno desconforto nos espaços onde deveriam aparecer dois de seus dentes de siso. Bastou uma radiografia feita no próprio consultório para constatar a existência de cistos no local. Os outros dois dentes, que também estavam inclusos, apresentavam um posicionamento incorreto, com risco de reabsorção da raiz do segundo molar.
"A experiência de acompanhar a extração de outros pacientes me deixou mais tranqüila por saber que, apesar de muitos chegarem com medo, ao final, eles sempre revelam que não foi tão ruim quanto esperavam", explica ela, que extraiu os quatro dentes em duas etapas, com um intervalo de 20 dias entre elas.
Apesar da tendência cada vez maior de extração, a retirada dos dentes não deve ser tomada como regra. Luciano Artioli Moreira explica que há situações em que o terceiro molar é deslocado para preencher o espaço provocado pela perda de algum outro dente da boca por meio do uso de aparelho ortodôntico ou até mesmo por implante. "O dente de siso não é um vilão, é apenas mais um dente. Muitos já não o têm, outros têm a sua remoção recomendada por diferentes fatores, mas outros o têm em condição de perfeito uso", diz.


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