Dia desses, peguei um rabo de conversa em rede social sobre o uso incorreto de uma conjugação verbal no texto de um articulista da grande imprensa. Como o debate se dava entre linguistas, talvez não tenham usado termos como "erro" ou "incorreção", se bem que era isso o que estava em discussão. O emprego desviante em questão era uma forma do verbo "pôr" que deveria estar conjugada no futuro do subjuntivo ("pusermos"), mas aparecia no infinitivo flexionado ("pormos").
A frase era algo mais ou menos como isto: "Enquanto não pormos um limite nos abusos de X, Y e Z, não há futuro próximo". O verbo da oração iniciada por "enquanto" (subordinada) denota uma ação ainda não realizada, dependente de outra, portanto deveria estar no modo subjuntivo, ou seja, "enquanto não pusermos um limite [...], não haverá futuro próximo". O deslize foi percebido e o termo foi alterado, na versão online do texto, para "colocarmos": "enquanto não colocarmos um limite".
A substituição corrigiu o problema sem corrigir o português. Explico, ou melhor, pergunto: por que não "pusermos"? Penso que trocar "pormos" por "pusermos" denunciaria mais facilmente o erro gramatical; a substituição de uma palavra por outra pode ser mero capricho estilístico. Há tempos vejo essa estratégia de correção gramatical na imprensa. De todo modo, a mudança resultou numa construção correta à luz da norma-padrão.
Convém lembrar que, diferentemente de "colocar", o verbo "pôr" é irregular. Quando se trata de verbos regulares, há coincidência formal entre as formas de futuro do subjuntivo e as de infinitivo pessoal (ou flexionado): "enquanto não colocarmos (subjuntivo)" e "adornos para colocarmos na cabeça (infinitivo pessoal)". Com o verbo "pôr", teríamos isto: "enquanto não pusermos (subjuntivo)" e "adornos para pormos na cabeça (infinitivo pessoal)". Aí está o motivo da confusão.
No debate, surgiu, naturalmente, a questão da possível tendência à regularização dos verbos, da qual o caso seria um exemplo. Nesse ponto, vale observar que essa tendência parece mais justificável nos verbos derivados dos irregulares, que, por vezes, não são percebidos como tais. Veja-se o caso de "intervir", tantas vezes conjugado, no pretérito perfeito, como "interviu" em vez de "interveio". Nesse caso, o falante parece flexionar "intervir" como faz com os verbos regulares (partir/ partiu, sair/saiu, intervir/interviu*), ignorando o fato de "intervir" ser derivado de "vir" e de este ser um verbo irregular. Muito mais raro é alguém conjugar "vir" como "viu" no passado – até porque "viu" é o pretérito perfeito de "ver". (Raro também é alguém conjugar corretamente o futuro do subjuntivo de "ver": "quando eu o vir".)
Os derivados de "ter" (manter, entreter, deter, conter etc.) seguem a sua conjugação irregular (mantiver, entretiver, detiver, contiver etc.) e o mesmo se dá com os de "fazer" (refazer/ refizer, satisfazer/satisfizer etc.), entre outros casos. Os derivados de irregulares são mais frequentemente alvo da regularização. Por exemplo, é mais fácil ouvirmos "se eu manter" do que "se eu ter", não? A forma "tiver", de futuro do subjuntivo de "ter", por sua vez, costuma ser usada tanto para o verbo "ter" mesmo ("se eu tiver tempo") como para o verbo "estar" ("se eu ‘tiver aqui") – neste último caso, no lugar de "estiver" (com aférese comum na linguagem falada e, às vezes, transposta para a escrita).
De volta à rede social, foi também mencionada a escolarização do autor da frase que deu ensejo ao debate. Sendo ele um professor universitário, não teria o direito de cometer o erro ou talvez devesse envergonhar-se dele. Quem já tenha trabalhado na imprensa, porém, sabe que esses erros são comuns e que pessoas muito bem escolarizadas estão sujeitas, sim, a cometê-los.
De minha parte, penso que seja normal corrigir quando há erro e pesquisar ou consultar quando há dúvida. O que não parece muito coerente é dizer que não existe "erro" e se espantar com o "erro". A meu ver, é perfeitamente natural ter dúvidas gramaticais: qual é mesmo o particípio de "intervir", qual é o plural de "corrimão", "ele é um dos que foi ou um dos que foram"?
Como não poderia deixar de acontecer, alguém se lembrou de checar a ideologia do autor do erro gramatical. Bem, aí está um critério interessante. Os que gostam do que o autor escreve disseram que ele não tinha obrigação de saber essas coisas, já que estava falando de outras, quiçá mais relevantes; os que não gostam de suas ideias acham que ele merece um puxão de orelha por ter matado a aula de português no ginásio. Depois dessa, eu me rendi a um adorável vídeo de gatinhos brincalhões!
Que coisa mais bonita! Uma mulher jovem que, em meio de tantas siglas de inteligência artificial das plataformas digitais tem a preocupação de defender nosso belo idioma , suas armadilhas semânticas e suas regras gramaticais. Numa era muito remota quando a Folha somente chegava em nossas casas depois de transportada por avião ela lançou um Manual para a arte de redigir. Um tesouro que alguém roubou de minha biblioteca e nunca mais achei.