Luiz Felipe Pondé

Escritor e ensaísta, autor de "Notas sobre a Esperança e o Desespero" e “A Era do Niilismo”. É doutor em filosofia pela USP.

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Luiz Felipe Pondé
Descrição de chapéu X

E depois o problema é Elon Musk

É difícil ter esperança, porque essa palavra foi capturada pelo marketing e suas mentiras

"Fuck you, Elon Musk." Aplausos. Plateia de regredidos. País de regredidos. Manifestação nada elegante da nossa presidenta de fato. Quebra "teen" do protocolo. No fundo, não há problema, o Brasil já está no fundo do poço mesmo e essa frase deve ser escrita na lápide do caráter nacional. Nossas lideranças são delinquentes. Paulatinamente, o povo segue o exemplo, com sua irresponsabilidade, indiferença mentiras, intimidação, corrupção.

E depois o problema é Elon Musk. Temo muito mais essa gangue que manda no país do que as plataformas. O Estado é infinitamente mais perigoso do que uma plataforma. Temo mais o Estado do que o X. Num clique, numa canetada, o Estado acaba com quem quer que seja que ele queira destruir, associando sua retórica vazia com seu poder de fogo absoluto. Ainda mais no Brasil, onde o tal cantado em prosa e verso "Estado de Direito" existe, prioritariamente, apenas para os amigos do rei.

Recentemente, um profissional de transporte executivo me dizia que o trânsito piora a cada dia, seja na cidade, seja na estrada, com os motoristas cada vez mais agressivos e indiferentes aos outros motoristas. A violência toma conta do tecido social. A polícia, muitas vezes, contaminada pela corrupção, e a esquerda, como sempre, com sua clássica paixão pelos bandidos.

A ilustração de Ricardo Cammarota foi executada em técnica digital vetorial em três cores chapadas: azul, marrom e cinza claros 
Na horizontal, proporção 13,9cm x 9,1cm, a ilustração apresenta uma composição livre, composta de pictogramas unidos e sobrepostos: um carrinho de supermercado, outro, de transporte, um símbolo de reciclagem e um gráfico ascendente + flecha
Ilustração de Ricardo Cammarota para coluna de Luiz Felipe Pondé de 25.nov.24 - Ricardo Cammarota

Um motorista de táxi me disse que um belo e antigo prédio da igreja católica do bairro, com seu maravilhoso claustro e jardim, foi vendido por milhões para ser derrubado e em seu lugar construírem algumas torres residenciais. A fúria imobiliária, delinquente como todo mundo que tem poder nessa terra, logo transformará São Paulo num lixão de cimento em meio a milhares de carros famintos por espaço. E o crime organizado festeja todo e qualquer "progresso de mercado".

Mas dirão os otimistas: é preciso ter esperança. Sem dúvida, há que ter esperança, mas uma virtude difícil como essa, e em frontal contraste com a ordem do mundo, não é para iniciantes.

Uma das dificuldades de termos esperança hoje é que ela foi capturada pelo marketing, e o marketing tem a mentira como seu método racional. Alguns médicos emprestam seus diplomas para discursos falsos sobre o empoderamento da plasticidade neuronal. Segundo eles, podemos mudar nossas sinapses ao bel prazer. Podemos nos reinventar ao sabor da epigenética que muda nosso DNA segundo a moda de comportamento da hora.

Dizem os especialistas em saúde mental: "Praticar a gratidão" —confesso que não entendo bem o que seja essa "prática"— nos faz dormir melhor e nos sentirmos mais felizes. Pobre gratidão. A gratidão só vale quando não ganhamos nada em troca, do contrário não é gratidão, é apenas oportunismo. Um detalhe que caracteriza uma virtude —esperança é a virtude oposta ao vício do desespero, aquele mesmo vício que o Brasil nos coloca toda hora como nosso destino —é que qualquer propaganda que a
tome como lema a destrói.

Toda virtude é destruída quando anunciada. Ela respira o silêncio da voz e apenas se move à sombra da ação. Qualquer associação entre marketing e esperança destrói a possibilidade da própria esperança. A pequena tragédia banal de quase todo discurso ético nesse ridículo século 21 é sua completa ignorância a respeito da natureza da ética que não sobrevive às fotos nem ao audiovisual.

Mas voltemos ao "fuck you, Elon Musk". Brasileiros abobados vão ao delírio com tal demonstração de ausência de austeridade. A direita não se salvou melhor quando seu sumo sacerdote dizia horrores como "não sou coveiro" na pandemia. Olhemos para qualquer um dos lados da margem do rio, o que enxergamos é o desespero com o futuro político do país. Chegamos a um ponto em que a máxima "vote no menos pior" já não tem nenhum significado, porque não há um menos ruim. As duas opções que tivemos desde 2018 e tememos tê-las em 2026 são puro lixo.

Sei. Dirão que os Estados Unidos não estão em melhor situação do que nós. Pobre manobra argumentativa. Eles são o país mais rico do mundo, o mais poderoso do mundo, para onde os miseráveis da Terra correm em busca de uma vida melhor. Nós somos um país miserável, no qual tudo que se planta dá, mas que vive preso ao atavismo das capitanias hereditárias, forma política da qual nunca nos libertamos.

Os Estados Unidos têm muito ainda o que gastar. Seu mercado, gigante como é, tem como efeito a proteção dos espaços de sobrevivência daqueles que caem em desgraça num lugar, mas tem outro para ir. Aqui, por outro lado, não há rota de fuga. Aqui, o mercado é feio, furioso e pobre, como um consumidor de crack.

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